Poema: Atalhos, Atalhos, Onde Nos levam? Autor: Wagner Martins

 


Poema: Atalhos, Atalhos, Onde Nos levam?

Autor: Wagner Martins

 

Como é
viciante
pegar atalhos!

Imagine comigo —
várias realizações
que nos custariam
seis meses,
um ano
ou até mais de espera,
de privações

e impulsos reprimidos,
acontecerem
I M E D I A T A M E N T E!

Meça isso!

A força sedutora
de todas essas facilidades
é a de um terrível furacão:
causa um gigantesco arrastão,
atraindo o apetite
do coração
mais saciado,
deixando-o
a salivar.

Como não?

Atravessamos
o Deserto das Carências.

Raridade:
viver a realidade
das prioridades
que batem
forte
no peito;

dos desejos de ir,
possuir,
provar da fruta
tão abstrata da felicidade...

Todas essas vontades
ardem;

nos perseguem

como o calor de meio dia,
fazendo-nos agir
perdidos da razão.

Debandamos
como animais
famintos, carnívoros,
desembestados,
rumo às miragens!

Quando, por atalhos,
as alcançarmos,
saciaremo-nos:

Matamos a nossa sede
com a água do mar;
vemos nosso castelo de areia
sendo destruído pela maré cheia;

o Deserto se prolonga
em dunas de sonhos,
enquanto somos
arrastados
numa tempestade
de sentimentos de fracasso;

os atalhos devolvem-nos
ao começo da peregrinação.

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