O MAIS INTENSO BRILHO, Wagner Martins (Poesia)


O MAIS INTENSO BRILHO

I.

A natureza soa
A lamentar,
No vendaval feroz
Com ecos de angustiar,
a afirmar:

Os demônios eram brancos
como a neve sim!...
brancos...
como a neve, neve...
juravam que azul, azul, que azul...
Era seu sangue, azul... sangue...

Maestros malignos regiam
As orquestras dos terrores,
corais entoando
os prantos perturbadores dos massacres
nos porões dos navios negreiros!...

Em terra tropical
sob os mesmos regimentos demoníacos:

Os grandes corais com gemidos inexprimíveis
Foram obrigados a explorar, e civilizar a mata!
Os grandes corais com chicotes a marcar a pele
construíram a louvada terra brasileira!

Ainda por aqui muitos dessas legiões de demônios
São até hoje lembrados como heróis,
São até hoje homenageados
tendo os seus nomes em tudo que há de importante!...

Anos, e mais anos
os corais diminuía:
já que os tormentos indescritíveis
muitos não resistiam!...

Anos, e mais anos
os corais diminuía:
já que muitos suicidavam,
mães matavam os próprios filhos
por uma infeliz mistura de sentimentos:
amor, e desespero!...

II.

Aboliram a escravidão
Ou só tiraram as correntes, os grilhões?!
Já não estão mais nas senzalas,
Porém estão nos lugares esquecidos...
Já não estão mais nas casas brancas;
agora estão nas casas bonitas
sempre servindo...
alguns nas ruas das metrópoles,
geralmente ignorados, geralmente notados
só como suspeitos, e poluições visuais,
até quando!? Mais 500 anos!?...

Aboliram a escravidão
Ou só tiraram as correntes, os grilhões?!
Pois ainda exercem as mesmas servidões,
Aparentemente não é por opção,
Contudo, analisando a cena trabalhista,

Qual é o tom de cor das maiorias das mãos
Nos trabalhos braçais?
Qual é o tom de cor das maiorias das mãos
Calejadas de tanto plantar, de tanto colher,
E não gozam do escolher, do crescer na vida?

De lá para cá
Eles vêm sepultando:
A história, a cultura,
O orgulho, a autoestima dos negros...
Os excepcionais exemplos,
E conquistas dos ancestrais,
A esperança, a força de vontade
De tantos descendentes!...

De lá para cá
Eles vêm sepultando,
Amaldiçoando
A beleza negra,
O sorriso, a alegria dos negros,
A pele, o cabelo dos negros!...

Assim fazem para os manter conformados
com a desprezível situação que sobrevivem,
os manter culpados por toda dor, todo sofrimento
Que esses mesmos sofrem a todo momento!...

III.

Mas estão surgindo negras, e negros,
Que contrariando as maléficas estatísticas
Veem rompendo as barreiras do ódio,
do racismo, e triunfando!...

Mas estão surgindo negras, e negros,
que movem a tampa do sepulcro
Para conquistar seu lugar merecido,
e digno na sociedade,
Para brilhar como estrelas
O mais intenso brilho
com seu talento, sua capacidade,
tornando ainda com muito esforço
mais surpreendente a história da humanidade!

- Wagner Martins

6 de abril de 2018

SEM PESCAR ESTRELAS, Wagner Martins (Poema)


SEM PESCAR ESTRELAS

Que castigo é ser poeta,
Que castigo é ser poeta...
Quando coloro o horizonte
e a massa a ele vira as costas,
Quando me doo embrulhado no papel
onde a massa escarra!

Que castigo é ser poeta,
Que castigo é ser poeta...
Quando sonho, me alegro,
e desengano sozinho...
quando sofro, amo, odeio sozinho...
Quando explodo em constelação
E a massa não aprecia o espetáculo...
Isso é tão... solitário!

Que castigo é ser poeta,
Que castigo é ser poeta...
Quando presenteio
Os meus mais lindos pensamentos,
Os meus mais puros sentimentos,
E os idiotas que recebem
Só aprecia os enfeites da caixa,
Nem a abrem, e logo descarta!

Que castigo é ser poeta,
Que castigo é ser poeta...
Se possível fosse
Trocaria esse fardo:
Pelo humor que faz achar graça
Nas desgraças da vida...
Trocaria esse fardo
Pela bendita ignorância
De sofrer sem sentir,
De passar sem estar,
De ignorar sem me culpar,
De ser seco sem me incomodar,
De olhar o céu até nublado
sem pescar estrelas!

- Wagner Martins

21 de abril de 2018